Quaresma
O que não queremos aceitar e a luta pelo que nosso olhos não vêem.
Não sei se você cumpre a Quaresma, mas eu me lembro da minha professora de catecismo, a Sônia, falando sobre cada detalhe do que deveríamos cumprir.
Éramos jovens demais para compreender o peso da responsabilidade, e confesso que ela era muito paciente com a turma. Tínhamos nosso encontro todos os domingos às sete da manhã antes da missa. Foi bom e dei pouco valor ao que ela ensinou.
Hoje entendo o peso das responsabilidades que não estávamos dispostos à assumir. As explicações dela eram preciosas:
O rito começa com a liturgia simbólica: as cinzas na testa, a frase que é repetida há milênios — "lembra-te que és pó e ao pó voltarás". É uma convocação à conversão.
Uma pena que o mundo estava tão disponível e nos afastou tanto dos ensinamentos.
Após o compromisso o que acontece depois que se sai da igreja? Quantos de nós realmente carregamos a marca de cinza como um compromisso, e quantos a veem apenas como mais um ritual católico, bonito, tradicional, mas distante da vida real que nos espera lá fora?
A doutrina quaresmal é desafiadora: quarenta dias de preparação para a Páscoa através da oração, do jejum e da esmola. Três pilares que deveriam sustentar nossa conversão, nossa transformação. Mas há uma enorme distância entre o que se prega e o que se vive no cotidiano. E isso não é novidade — é antigo quanto a própria humanidade.
É estranho um protestante falar sobre a doutrina da quaresma, mas quando criança, cumpri os ritos de primeira comunhão e crisma com diligência, hoje eu amo meus irmãos católicos e sempre que possível conversamos sobre as tradições.
Sempre falamos das contradições, de que temos acesso ilimitado à informação, mas raramente paramos para refletir, de como as pessoas tentam ser autênticas nas redes sociais enquanto constroem versões editadas de si mesmos.
E aí, quando a Quaresma chega, ela bate de frente com tudo aquilo que nossa cultura nos ensina a valorizar: o prazer imediato, o conforto constante, a satisfação instantânea.
Manter a doutrina é difícil e então, descumprimos, porque não é um fundamento visível a todos, por isso descumprimos dietas, promessas de lermos mais, e passar menos tempo no celular.
E quando chega a Quaresma, simplesmente transferimos esse padrão para a esfera espiritual. "Vou jejuar às quartas e sextas", Mas lá pela primeira sexta-feira, surge um almoço de trabalho, ou estamos cansados demais, a correria — sempre há algo mais urgente, mais atraente, mais fácil.
Na vida, sempre teremos coisas a fazer e desculpas a apresentar, mas, irmãos e irmãs, hoje é o tempo de regressar a Deus.
Na última conversa com um amigo fervoroso, ele falou sobre a normalização desse descumprimento. Não apenas quando aceitamos nossas falhas como algo natural, mas quase esperamos falhar.
Após os embalos de carnaval, começar nossos compromissos quaresmais já vem com a certeza íntima de que não vamos levá-los até o fim. É como se viver a derrota antecipada.
Então vem a questão que a Quaresma nos força a enfrentar: por que isso nos incomoda tanto? Por que, mesmo depois de falhar pela décima, vigésima, centésima vez, ainda sentimos aperto no peito, porque temos a sensação de que estamos traindo algo importante?
E a resposta está dentro, nunca fora. Porque fomos feitos para mais. Essa inquietação não é culpa católica nem pressão religiosa — é a nossa própria alma reconhecendo que está vivendo abaixo de sua vocação. Quando desistimos de jejuar, não estamos apenas quebrando uma regra da Igreja; estamos cedendo aos nossos apetites, admitindo que somos escravos de nossos desejos em vez de senhores de nossas escolhas.
Quando abandonamos a oração, não estamos apenas faltando com uma obrigação; estamos fechando a única porta que nos liga com o que há de mais profundo em nós mesmos e no mistério de Deus. Todos nós sabemos que fomos criados para a santidade, e a Quaresma vem, ano após ano, nos lembrar dessa verdade: você pode ser melhor do que isso.
Após muitos anos fora da doutrina Católica posso dizer que o primeiro passo para viver bem a Quaresma não seja fazer promessas grandiosas, mas simplesmente olhar com honestidade para o fracasso, aprender a usar esses quarenta dias como um diagnóstico de quem realmente somos quando ninguém está olhando.
Por que não consigo ficar dez minutos em silêncio rezando sem que minha mente dispare em mil direções? O que isso revela sobre minha vida interior? Por que a ideia de abrir mão de um simples doce me parece um sacrifício insuportável? O que isso diz sobre minha relação com o prazer e o conforto? Por que passo horas nas redes sociais mas "não tenho tempo" para ler a Bíblia? Quais são as prioridades reais que governam minha vida?
Ser Católico não é ser desleixado com a vida espiritual, pelo contrário, a Quaresma é um espelho, ela não nos mostra a versão idealizada de nós mesmos, mas nossa verdade, vemos nossa preguiça espiritual, nossa tendência de escolher sempre o caminho mais fácil. E isso é desconfortável.
Por isso muita gente prefere ignorar a Quaresma completamente ou transformá-la num ritual vazio, só das cinzas, só da procissão, sem deixar que ela realmente entre nas camadas mais profundas do ser.
Ainda na conversa aprendi que somos os Cristãos do "tudo ou nada", e isso me fez lembrar de quando eu era criança e minha mãe me pedia para dividir a bolacha com minha irmã e ela preferia ficar sem que dividir comigo( isso era extremamente bom). Agora, o que esquecemos é: a santidade é construída em pequenos passos. Santos não são pessoas que nunca caem; são pessoas que levantam uma vez a mais do que caem.
E nisso, vou te convidar para algo grande e simples: E se, em vez de promessas impossíveis, você começar com algo minúsculo? Um único Pai-Nosso ao acordar. Cinco minutos de silêncio antes de pegar o celular. Uma obra de caridade por semana — não uma doação anônima que nos custa zero esforço, mas um gesto que realmente nos incomoda, nos tira da zona de conforto, nos coloca cara a cara com o sofrimento do outro?
O problema de muitas de nossas promessas quaresmais ou não, é que são abstratas demais, grandiosas demais, fáceis de quebrar porque nunca foram realmente concretas. "Vou ser mais caridoso" não significa nada se não se traduz em decisões específicas: vou parar de falar mal dos colegas de trabalho, vou ligar toda semana para aquele parente solitário, vou dedicar uma tarde por mês a um trabalho voluntário, e aí, você pode fazer isso? Ou parece impossível?
Jesus passou quarenta dias no deserto enfrentando tentações, sofrendo fome ,e lidando com a solidão. E nós queremos apenas uma performance simbólica, porque se não consiguimos abrir mão de um chocolate por amor a Deus, como vamos conseguir abrir mão da vingança, do orgulho, e do egoísmo?
Para os católicos praticantes, o jejum quaresmal não é um fim em si mesmo — é um treino de músculo espiritual para os jejuns involuntários que a vida nos impõe: a perda, o luto, a desilusão, a dor.
A Quaresma aponta para algo maior: a Páscoa, a Ressurreição, a vitória da vida sobre a morte. E essa é a grande esperança que deve nos mover: nossas pequenas mortes quaresmais — morrer para o ego, para a preguiça, para o pecado — são preparação para uma vida ressuscitada.
Papa Francisco: “A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza”.
Cada vez que você vence a tentação de desistir, de se acomodar, de escolher o fácil em vez do certo, você está está provando para si mesmo que é possível mudar, que não estamos presos aos nossos vícios e fraquezas, que há liberdade disponível para quem está disposto a pagar o preço de morrer um pouco a cada dia, conhecer nosso versão medíocre que se contenta com tão pouco. Morrer para a cultura do descumprimento que nos ensina a abraçar a verdade incômoda de que podemos, sim, ser transformados.
Meu amigo me mostrou como começar com propósito não e tropeçar vergonhosamente, a manter o jejum e não e ceder à tentação, a fugir do nosso fracasso e não usar nossas desculpas para desistir completamente.
Se você não católicos, entenda que, para quem segue as doutrinas, a Quaresma não é mais uma tradição vazia ou de cumprimentos por obrigação social.
São Josemaria Escrivá “Amigos de Deus”, 138: “És penitente quando te submetes amorosamente ao teu plano de oração, apesar de estares esgotado, sem vontade ou frio.”
A Quaresma molda o espírito para a honestidade, persistência e coragem, o suficiente para não desistir de nós mesmos. Porque se Deus não desiste de nós — e a cruz prova que Ele não desiste —, então talvez seja hora de pararmos de desistir também.
Quarenta dias se formos capazes de levá-los a sério. A escolha, como sempre, é nossa.
Até mais.





Que texto rico. Se não menciona, não acreditariam que não é católico. Parabéns.
Uma ótima newsletter sobre a quaresma no sentido católico, escrita por um protestante 😅